Os eucaliptos (género Eucalyptus) são hoje uma imagem de marca da Austrália, representando a maioria das florestas naturais australianas, país onde se podem encontrar espécies de quase todos os habitats terrestres. Este género da família Myrtaceae surgiu no antigo supercontinente Gonduana, mas foi apenas na Austrália e ilhas adjacentes que sobreviveu e se diversificou. A introdução deste género fora da Austrália foi lenta, com a primeira plantação na Europa apenas em 1774. As primeiras plantações comerciais surgiram quase um século mais tarde, mas o potencial produtivo do género tornaram-no imprescindível para a bioeconomia de base florestal em grande parte do Mundo moderno. Este artigo corresponde uma revisão sobre o conhecimento disponível versando particularmente sobre a origem e a diversidade do género Eucalyptus.
Origem
Apesar de durante muito tempo se acreditar que o género Eucalyptus tivera origem na Austrália há 20 milhões de anos, hoje sabemos que é muito mais antigo: em 2011 descobriram-se fósseis com cerca de 52 milhões de anos, a 11 000 km da costa australiana, na Patagónia (Gandolfo et al., 2011) e, em 2014, a análise do genoma colocou a origem do género há 110 milhões de anos (Myberg et al., 2014).
Embora não saibamos com exatidão qual o local de origem do género, acredita-se que esta tenha ocorrido no supercontinente de Gonduana (figura 1). Porém, foi a Austrália que acabou por ser o último reduto, evitando a extinção generalizada do género e permitindo a sua evolução para a grande diversidade que pode ser observada atualmente.Figura 1 - Gonduana (Fonte: https://knoow.net/). O género Eucalyptus faz parte de uma grande família botânica chamada Myrtaceae (Doughty, 2000). Com quase 6000 espécies já descritas, esta família apresenta distribuição maioritariamente no hemisfério Sul em clima tropical ou subtropical (Grattapaglia et al., 2012). Alguns membros famosos desta família são, por exemplo, as especiarias pimenta (Pimenta dioica e P. racemosa), cravinho (Syzygium aromaticum) e alguns frutos tropicais, como a goiaba (Psidium guajava), feijoa (Acca sellowiana) e a pitanga (Eugenia uniflora).
Mais de 99% das espécies de eucalipto são nativas da Austrália e da Tasmânia. A sua área de distribuição natural estende-se também para norte, nas ilhas da Indonésia e Timor-Leste e para nordeste, na Papua Nova Guiné (figura 2). Uma espécie inclusive atravessa a linha do Equador (E. deglupta), nas Filipinas. Ao todo apenas cinco espécies não ocorrem naturalmente no território australiano, o que faz deste género um verdadeiro símbolo da Austrália.Figura 2 - Mapa com a área de distribuição natural do género Eucalyptus (Slee et al., 2015). Embora a maior parte das espécies seja de clima temperado ou subtropical, é possível encontrar eucaliptos em quase todas as regiões da Austrália, desde os Alpes australianos onde neva frequentemente, até aos desertos (Slee et al., 2015; Bureau of Meteorology, 2021). A elevada diversidade do género permitiu a sua adaptação a quase todo o tipo de ambientes, cobrindo cerca de 77% das florestas nativas australianas, o que corresponde a 101 milhões de hectares (Department of Agriculture, Water and the Environment, 2021).
Diversidade
Com 10 subgéneros e quase 800 espécies, Eucalyptus é um dos maiores géneros dentro da família Myrtaceae. A diferenciação entre espécies consubstancia-se em diferentes aspetos: nas características dos botões florais, flores e frutos (cápsulas) que variam no número, dimensões e cor, na forma e cores das folhas, e da casca que apresenta também uma grande diversidade. Em relação a esta última característica, os eucaliptos mais conhecidos apresentam casca caduca, que cai anualmente em pequenos pedaços ou grande faixas, mas quase 50% dos eucaliptos, possuem casca persistente, ou seja, o tronco nunca fica liso e nu (Goes, 1985; Lopes, 2006; Slee et al., 2015).
Os eucaliptos também podem apresentar diferentes hábitos, desde as árvores altas e esguias que conhecemos, até arbustos rasteiros, denominados mallee (típicos das zonas costeiras e desérticas), arbustos de maiores dimensões denominados marlock, até a algumas das maiores árvores do planeta (Slee et al., 2015).Figura 3 - E. regnans (centenário com mais de 72 m de altura) na Mata Nacional do Buçaco (A) e E. obliqua na Quinta de S. Francisco, Aveiro (centenário com mais de 52 m de altura) (B). Destino: resto do Mundo
O primeiro contacto com exploradores europeus remonta a 1515, quando portugueses observaram eucaliptos pela primeira vez, na Ilha de Timor. Esta ilha possui três espécies de eucaliptos (E. urophylla, E. orophila e E. alba), havendo a possibilidade de os portugueses terem levado sementes destas espécies para outros locais, nomeadamente o Brasil (Doughty, 2000; Slee et al., 2015).
Foi em Londres que se plantou o primeiro eucalipto em solo europeu, no Real Jardim Botânico de Kew, em Londres, em 1774, trazido por Tobias Furneaux, durante a segunda viagem do capitão James Cook (Potts et al., 2006; Silva-Pando & Pino-Pérez, 2016; Cabral, 2019). Em 1788, o género foi descrito cientificamente e denominado por Charles L'Héritier, a partir de exemplares de E. obliqua recolhidos na costa australiana (Adventure Bay, em Bruny Island, no Sul da Tasmânia) (figura 3B). Inicialmente os eucaliptos não passavam de uma mera curiosidade botânica, mas as suas excelentes características florestais (com troncos aprumados, crescimento rápido e capacidade para regenerar por toiça) fizeram com que começasse a haver verdadeiro interesse económico no género no final do séc. XIX (Doughty, 2000; Alves et al., 2007).Atualmente
Hoje as plantações de eucalipto cobrem atualmente mais de 25 milhões de hectares em todo o mundo em mais de 90 países, sobretudo nas faixas tropicais, subtropicais e temperadas, que permitem a exploração do género (Eucalyptus 2018a, 2018). As florestas de eucalipto estão entre as mais produtivas do mundo. O rápido crescimento de algumas espécies (que pode exceder os 50 m3 ha-1 ano-1), especialmente em clima tropical têm permitido uma redução da dependência de combustíveis e das emissões de carbono (Eucalyptus 2018b, 2018). Para além de representar matéria-prima para uma população crescente, este género tem sido proposto como uma das soluções para as alterações climáticas, pela sua capacidade de sequestro de carbono, contribuindo para a defesa do clima da Terra (Karoshi & Nadagoudar, 2012).
Para saber mais sobre o Eucalyptus globulus em Portugal consulte o nosso dossier temático Floresta de produção em Portugal (link: https://www.e-globulus.pt/biblioteca-online/dossiers/floresta-producao).
Conclusão
Esta é a história de um género que surgiu há mais de 110 milhões de anos na Gonduana, que sobreviveu ao tempo e evoluiu e se diversificou na Austrália, e a partir de lá se tornou num género incontornável nas florestas de produção do Mundo.
Sobre o autor:
Curador da Quinta de S. Francisco,
RAIZ - Instituto de Investigação da Floresta e Papel
Contacto: joao.ezequiel@thenavigatorcompany.com
Como citar:
Ezequiel, J. (2022) Descobrindo o Eucalyptus – origem e diversidade. Dossier e-globulus.
RAIZ - Instituto de Investigação da Floresta e Papel. Disponível em: www.e-globulus.pt.
Referências bibliográficas
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